VENCEDORES 2017

VENCEDORES DE 2017

AIRTON SOUZA PRIMEIRO LUGAR

 

Com o poema: Dos dias que há dentro de nós

Para o poeta Carlos Drummond de Andrade e todos os homens e mulheres abandonados

 A cidade que atravessa meu dia

vem, com seu corpo pintado de lilás, perguntar,

com a mesma beleza que acorda pétalas, ramos e relvas:

onde está seu sonho?

 

Tenho nãos mãos desmedidos caminhos que sonham

ouvir a cidade cortar o silêncio da invisibilidade sintática

& ressuscitar nos corações dos homens, mulheres e meninos

[ na mesma direção enfática do amor ]

o desejo, sem frieza, pelas flores, em vez de armas

pelas elaborações da vida, em vez da temporalidade: morrer

ou, ao menos um gesto em que o abandono nos olhos

não seja mais quem coisas invisíveis.

 

Esses mesmos homens, mulheres e meninos,

com voz inundada pela invisível cidade

não entenderam que dentro de outros homens, mulheres e meninos

que estão abandonados pelas calçadas sem sentimentos,

também nasceram  com sonhos que rompem asfaltos

mas, sucumbem antes de entender que outrora é agora.

 

É como se nessa manhã estivéssemos

distantes demais do pão e do amor

e a chaga da palavra benevolência

respondesse por essa fisionomia com uma linguagem

de petúnias arcaicas.

 

O essencial é inventar agora como semear:

o pão, o amor e a casa,

só esse latifúndio nos conduzirá

ao verbo antes da carne

porque o abandono nos faz verbo.

 

Assim mesmo respondo a cidade e sua invisibilidade

que meu sonho está nas coisas e suas dimensões ressentidas

que estão sentimentalmente morrendo

antes de trazer o necessário gesto mapeado

pela utilidade que tem o amor no mundo.

 

Mas, é urgentemente necessário compreender

que os homens, mulheres e meninos

ao acordarem em calçadas todas as manhãs

sem girassóis nos olhos, falam com Deus, sem ressentimentos.

JOSÉ PAULO FUSCO SEGUNDO LUGAR

Com o poema:

AS ÁGUAS E O VENTO

O destino mistura meus braços e os teus num laço de amor indestrutível,

Nossos ânimos são ligados, indissolúveis, como num abraço apertado da morte querendo beijar a vida.

O vento uiva ao nosso lado, quem sabe nos vaiando a noite inteira, mas o farfalhar das folhas das árvores nos aplaudem incondicionalmente.

Talvez porque tenhamos amigos e inimigos ocultos na natureza, que só se manifestam em determinados momentos.

Bom, atualmente ouço muito mais o aplauso das árvores. Ando meio arredio, tentando conquistar o vento, mas não consigo. Talvez não valha mais a pena. O vento é muito leva e traz.

O sol, pelo seu calor, sei que está do meu lado e me aplaude. A lua também porque, apesar de ter testemunhado todas as barbaridades que cometi aqui em baixo, continua a iluminar os meus caminhos noturnos.

As águas do rio também, quando correm placidamente pelas pedras das corredeiras; assim como a água do mar, quando quebra na praia, em estrondosa salva de palmas.

Mas o vento não, nunca deu o braço a torcer. Continua me vaiando apesar de, às vezes, refrigerar meu corpo silenciosamente para que eu não ouça. Ele não sabe, mas tenho a esperança de, algum dia, ainda poder contar com ele.

No entanto, continuamos nós dois aqui abraçados, ligados num amor profundo, mas que só nos toca a superfície da existência.

Deixo-me levar pelas águas do rio para ver até onde consigo ir adentro no oceano do teu amor. Deixo o sol esquentar a minha alma durante o dia e, durante a noite, vou caminhando dirigido pela luz da lua que reflete no teu olhar.

Vou chegando perto do sussurro dos teus lábios e pronuncio a palavra mágica, que me deixa entrar no templo dos teus segredos. Um por um.

Finalmente o vento se rende à minha vontade e impulsiona as velas do meu barco, que segue navegando solto pelos oceanos do teu sono, que se perde no horizonte de nossas verdades e ilusões.

 

WITIMA SANTOS TERCEIRO LUGAR

 

Com o poema:

 

Rio de silêncios –

Perdoe meu silêncio…
Ele segue seu destino, assim como o rio segue o seu curso…
Frio e solitário…
Rastejando-se sobre as pedras, fazendo seu próprio caminho…
Deixando pegadas sobre o vazio, 
encharcando as raízes mortas e esquecidas de um triste passado,
para que elas possam renascer novamente com esperança de que o amor as fará florescer mais uma vez…

Perdoe o meu silêncio…
Ele segue seu destino, assim como o rio segue o seu curso…
Atenuando-se em meio aos obstáculos… 
Inundando o sádico vazio, e tornando-o profundo…
Despencando-se como cachoeira,
e seguindo seu curso mais uma vez…
Até o momento em que acharás teu implacável destino,
onde desaguarás o teu silêncio nesse mar de saudade,
e afogarás tua solidão.

–Witima Santos –

 

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